ROIC E WACC

O teste que separa a empresa que cria valor da que só movimenta dinheiro alheio.

ROIC E WACC
Avançado 11 min de leitura

Existe uma pergunta que resume quase tudo em análise de empresas, e ela cabe em nove palavras: essa empresa ganha mais do que custa o dinheiro dela? Se ganha, cada real reinvestido vira mais de um real de valor. Se não ganha, cada real reinvestido evapora um pouco, mesmo que o lucro esteja subindo e o gráfico esteja bonito. O ROIC responde a primeira metade da pergunta, o WACC responde a segunda, e a diferença entre os dois é o veredicto. Este artigo mostra como calcular os dois com os dados que existem no Brasil.

Três empresas, ROE quase idêntico. O spread conta outra história. Malharia Aurora ROIC 18,0% WACC 14,0% +4,0 p.p. Cimentos Ipê ROIC 12,0% WACC 11,2% +0,8 p.p. Varejo Guaraci ROIC 11,6% WACC 12,1% −0,5 p.p. Barra dourada: retorno sobre o capital investido. Barra cinza: custo desse capital.
Quando a barra cinza ultrapassa a dourada, a empresa está queimando o dinheiro dos sócios com um sorriso no rosto.

Por que o ROE engana

Imagine dois vizinhos que compraram apartamentos idênticos de R$ 500 mil e alugam cada um por R$ 3 mil por mês. O primeiro pagou tudo à vista. O segundo deu R$ 100 mil de entrada e financiou o resto. Sobre o dinheiro que cada um colocou do próprio bolso, o segundo aparenta um retorno muito maior. Só que ele não é melhor investidor de imóveis: ele apenas usou o banco. E se o aluguel cair, ou se a taxa subir, é ele quem quebra primeiro.

O ROE (retorno sobre o patrimônio líquido) é exatamente essa conta: lucro líquido dividido pelo patrimônio dos sócios. Ele mistura duas coisas que precisam ser separadas: a qualidade da operação e a dose de dívida usada. Uma empresa medíocre com muita dívida pode exibir um ROE de 18% e parecer irmã de uma empresa excelente sem dívida nenhuma que exibe os mesmos 18%.

A decomposição clássica (DuPont) deixa isso explícito: ROE = margem líquida × giro do ativo × alavancagem. O terceiro termo, ativo total dividido pelo patrimônio, é puro multiplicador. Quando uma empresa dobra a dívida, esse termo dobra e o ROE sobe sem que uma única unidade a mais tenha sido vendida. Por isso, no artigo sobre indicadores fundamentalistas, o ROE aparece sempre acompanhado da dívida líquida sobre EBITDA. Um sem o outro é meia verdade.

O que é capital investido

Antes do ROIC, precisamos definir o denominador. Capital investido é todo o dinheiro que foi colocado dentro do negócio para ele funcionar, venha de sócio ou de credor. É a soma do dinheiro no caixa da empresa que está efetivamente trabalhando.

Dois caminhos que dão no mesmo lugar:

Pelo passivo: Patrimônio líquido + dívida onerosa total − caixa e aplicações financeiras. Ou seja, patrimônio líquido mais dívida líquida.

Pelo ativo: Capital de giro operacional (estoques + contas a receber − fornecedores e outras contas operacionais) + imobilizado + intangível.

Tira-se o caixa porque dinheiro parado em CDB não é operação, é reserva. Se você deixar o caixa dentro do denominador, uma empresa com caixa gordo vai parecer pior operadora do que realmente é.

Uma decisão que vale discutir: incluir ou não o ágio de aquisições (goodwill). Se você quer saber se a operação é boa, exclua. Se você quer saber se o gestor aloca capital bem, inclua. A segunda pergunta costuma ser a mais relevante para o investidor de longo prazo, porque uma empresa que compra concorrentes caros demais está destruindo o seu dinheiro mesmo que as lojas dela sejam ótimas.

Como calcular o ROIC

ROIC é o retorno sobre o capital investido, e a fórmula é curta:

ROIC = NOPAT ÷ Capital investido, onde NOPAT = EBIT × (1 − 34%).

O NOPAT é o lucro operacional depois do imposto e antes dos juros. Essa é a sacada. Como o denominador inclui o capital do credor, o numerador precisa incluir o retorno que vai para o credor. Se você usasse lucro líquido (que já está depois dos juros) sobre capital investido, estaria comparando um bolo cortado com a receita inteira.

Na prática brasileira, três atalhos ajudam:

O que é o custo de capital

A analogia: dinheiro tem preço de tabela, e o preço muda conforme quem empresta e quanto ele pode perder. O banco que empresta para a empresa tem garantia, tem prioridade no recebimento e cobra menos. O sócio entra por último na fila, pode perder tudo, e por isso exige mais. O WACC é a média desses dois preços, pesada pela participação de cada um no capital.

WACC = (E ÷ (D+E)) × Ke + (D ÷ (D+E)) × Kd × (1 − 34%)

Uma estimativa de bolso para o Ke no Brasil: pegue o juro real da NTN-B longa, some a inflação implícita para chegar ao nominal, e some um prêmio de risco de renda variável de 5 a 7 pontos percentuais. Com NTN-B a 7% real e inflação implícita de 5%, o nominal fica em 12%. Somando 6 de prêmio, o Ke de uma empresa de risco médio sai em torno de 18% ao ano.

Sim, é alto. É a realidade de um país onde o governo paga muito para tomar dinheiro emprestado. Isso significa que a barra para criar valor no Brasil é mais alta do que nos Estados Unidos, e explica por que tanta empresa boa aqui negocia com múltiplo baixo.

O spread: o teste real

Agora junte as peças. Spread = ROIC − WACC. Positivo, a empresa cria valor. Negativo, destrói. Zero, ela é uma máquina de dar trabalho que devolve exatamente o que consumiu.

Veja três empresas fictícias com ROE praticamente idêntico e histórias completamente diferentes. Todas apresentam lucro líquido em torno de R$ 175 milhões e patrimônio líquido em torno de R$ 1 bilhão.

IndicadorMalharia AuroraCimentos IpêVarejo Guaraci
Lucro líquidoR$ 180 miR$ 180 miR$ 170 mi
Patrimônio líquidoR$ 1.000 miR$ 1.000 miR$ 950 mi
ROE18,0%18,0%17,9%
Dívida líquidaR$ 0R$ 1.500 miR$ 2.600 mi
Custo da dívida (Kd)nenhum12,0%14,0%
Despesa de jurosR$ 0R$ 180 miR$ 364 mi
EBITR$ 273 miR$ 453 miR$ 622 mi
NOPAT (EBIT × 0,66)R$ 180 miR$ 299 miR$ 410 mi
Capital investidoR$ 1.000 miR$ 2.500 miR$ 3.550 mi
ROIC18,0%12,0%11,6%
WACC estimado14,0%11,2%12,1%
Spread+4,0 p.p.+0,8 p.p.−0,5 p.p.

Se você olhasse apenas o ROE, as três seriam gêmeas. Olhando o ROIC, a Malharia Aurora produz 18% sobre cada real posto no negócio, enquanto o Varejo Guaraci produz 11,6% e ainda paga 12,1% pelo dinheiro. O ROE de 17,9% do Guaraci é um empréstimo disfarçado de competência.

Repare também que a Aurora tem o WACC mais alto das três, porque não usa dívida e capital de sócio é caro. Mesmo assim ela vence com folga. Isso derruba um mito comum: dívida barata não é vantagem competitiva, é apenas um desconto no custo do dinheiro que qualquer concorrente também consegue tomar.

Crescer destruindo valor é pior que não crescer

Essa é a parte contraintuitiva e talvez a mais valiosa. Existe uma crença de que crescimento é sempre bom. Não é. Crescimento multiplica o spread, seja ele positivo ou negativo.

Pense numa franquia de lanchonete. Cada loja nova custa R$ 500 mil e gera R$ 40 mil de lucro operacional depois de imposto, um retorno de 8%. Se o custo de capital do dono é 12%, cada loja nova destrói cerca de R$ 20 mil de valor por ano. Abrir cem lojas não corrige o problema, ele multiplica o problema por cem. O faturamento explode, sai na imprensa, e o patrimônio do dono encolhe.

A matemática por trás disso é direta. Uma empresa que reinveste 60% do lucro a um ROIC de 8% com WACC de 12% vale menos do que a mesma empresa distribuindo 100% do lucro em dividendos e não crescendo nada. É por isso que empresa madura com spread negativo deveria devolver dinheiro ao acionista em vez de tentar se reinventar. Poucas fazem, porque distribuir caixa reduz o império do executivo.

A regra em uma frase: crescimento só cria valor quando o ROIC marginal supera o WACC. Fora disso, crescimento é apenas uma forma mais rápida de perder dinheiro.

Repare que o termo é ROIC marginal, o retorno sobre o capital novo, não sobre o capital já investido. Uma empresa pode ter ROIC histórico de 20% e estar reinvestindo o caixa atual a 6% em um projeto ruim. A média demora anos para revelar isso.

O que sustenta um ROIC alto

Capitalismo funciona por imitação. Se um negócio rende 25% ao ano, alguém vai copiar, entrar no mercado, brigar por preço e derrubar o retorno para perto do custo de capital. ROIC alto por muitos anos é a evidência mais confiável de que existe uma barreira impedindo essa imitação. As barreiras que funcionam de verdade são poucas:

Um teste prático: puxe o ROIC dos últimos oito ou dez anos. Se ele oscila mas fica sempre acima do custo de capital, inclusive nos anos ruins, você provavelmente encontrou uma barreira real. Se ele é alto só nos anos de commodity em alta, o que você encontrou foi um ciclo, e ciclos se explicam melhor pelo artigo sobre ciclos de mercado do que por qualquer tese de qualidade.

Como estimar isso no Brasil, na prática

Todos os dados necessários são públicos. O roteiro:

  1. EBIT e imposto: DRE do release trimestral ou das demonstrações padronizadas na CVM. Some quatro trimestres para ter o número dos últimos doze meses.
  2. Dívida bruta, caixa e patrimônio líquido: balanço patrimonial. Dívida onerosa aparece como empréstimos e financiamentos, debêntures e arrendamentos.
  3. Custo da dívida: nota explicativa de empréstimos, que traz a taxa média contratada (CDI mais spread, IPCA mais spread, prefixado). Alternativa: despesa financeira do ano dividida pela dívida bruta média.
  4. Custo do equity: taxa da NTN-B longa mais inflação implícita mais 5 a 7 pontos de prêmio. Ajuste para cima em setores voláteis e para baixo em concessões reguladas.
  5. Arrendamentos (IFRS 16): atenção especial no varejo. Aluguéis de loja viraram dívida no balanço. Se você ignorar essa linha, o capital investido de uma rede de varejo fica subestimado e o ROIC aparece inflado.
  6. Repita para três a cinco anos e olhe a trajetória, não o ponto. Um ROIC único é uma fotografia de um dia atípico.

Duas armadilhas frequentes. A primeira: empresas com ativos muito antigos e depreciados exibem ROIC artificialmente alto, porque o denominador está registrado a preço de 1998. A segunda: holdings e conglomerados diluem tudo, e o ROIC consolidado esconde uma divisão excelente carregando três medíocres. Nesses casos, o número que importa está na abertura por segmento.

Como isso se conecta ao preço

ROIC e WACC não dizem se a ação está barata. Dizem se o negócio merece ser dono. São coisas diferentes, e confundir as duas é o erro clássico de quem descobre empresas de qualidade e paga qualquer preço por elas.

A ligação prática é esta: o spread justifica o múltiplo. Uma empresa com ROIC de 25% e WACC de 13% pode negociar a P/L 20 sem estar cara, porque cada real reinvestido cria valor. Uma empresa com spread zero não merece prêmio nenhum sobre o valor patrimonial, por melhor que seja a marca. E é exatamente o spread que aparece disfarçado dentro das premissas de crescimento quando você monta um fluxo de caixa descontado: modelo que projeta crescimento alto sem exigir capital novo está, implicitamente, assumindo um ROIC infinito.

Se você quiser um único filtro para começar a separar empresas antes de qualquer valuation, use este: ROIC acima do custo de capital em pelo menos oito dos últimos dez anos. Quase nenhuma empresa passa. As que passam merecem seu tempo.

Este artigo tem caráter educativo e não é recomendação de investimento. Malharia Aurora, Cimentos Ipê e Varejo Guaraci são empresas fictícias criadas apenas para o exemplo. Regras e taxas podem mudar, confirme as condições vigentes antes de investir. Rentabilidade passada não garante resultados futuros.