GOVERNANÇA CORPORATIVA

O balanço mostra quanto a empresa ganhou. A governança decide quanto disso chega até você.

GOVERNANÇA CORPORATIVA
Avançado 11 min de leitura

Quando um investimento em ação dá errado devagar, quase sempre foi erro de análise: você pagou caro, o setor virou, o ciclo mudou. Quando um investimento dá errado de uma vez, perdendo 60% numa semana e nunca mais voltando, quase sempre foi governança. Governança é o conjunto de regras que define quem manda na empresa, quem fiscaliza quem manda e o que sobra para quem só colocou dinheiro. É o item mais difícil de medir em planilha e o que mais destrói patrimônio quando falha. Este artigo mostra o que dá para verificar sozinho, de graça, antes de comprar.

Por que governança destrói mais que balanço ruim

Pense em ser sócio minoritário de um restaurante. Você entrou com 20% do dinheiro, mas quem cozinha, contrata, compra e assina cheque é o sócio majoritário. O restaurante pode estar lotado todo dia, com margem excelente. Se o majoritário decide comprar a carne de uma empresa que pertence ao cunhado dele, pelo dobro do preço de mercado, o restaurante continua lotado e o seu lucro some. Nada no faturamento denunciaria isso. O dinheiro não deixou de existir, ele apenas saiu por uma porta em que você não tem acesso.

Esse é o problema central do investidor em bolsa, e ele tem nome: conflito de agência. Você delega o controle do seu dinheiro para pessoas cujos interesses não são automaticamente iguais aos seus. Governança é o conjunto de travas que reduz essa distância. Ela não gera lucro sozinha, mas protege o lucro que já existe.

O detalhe assimétrico é que problema operacional costuma ser reversível, enquanto quebra de confiança normalmente não é. Uma empresa que perdeu margem pode recuperar em dois anos. Uma empresa cujo controlador foi flagrado desviando valor passa a negociar com desconto permanente, porque o mercado embute um prêmio de risco que não some mais. Você pode acertar o valuation e ainda assim perder dinheiro, se o valor criado nunca chegar ao acionista.

Os segmentos de listagem da B3

A B3 criou, no começo dos anos 2000, uma espécie de sistema de selos. Empresas podem escolher listar-se em segmentos com regras mais rígidas do que a lei exige, sinalizando ao mercado que aceitam ser mais fiscalizadas. É adesão voluntária e contratual: a empresa assina, e passa a ter obrigações adicionais.

A lógica é a mesma de um condomínio com regimento interno mais duro que a lei. Ninguém é obrigado a morar lá, mas quem mora aceitou regras extras, e quem compra apartamento no prédio sabe de antemão o que pode e o que não pode. O detalhe crucial é que o selo não garante honestidade, ele apenas encarece e dificulta o abuso. Já houve fraude relevante em empresa de Novo Mercado. O que o segmento faz é aumentar a chance de a fraude ser detectada mais cedo e dar mais instrumentos ao minoritário.

ExigênciaNovo MercadoNível 2Nível 1Básico
Tipos de açãoSó ONON e PNON e PNON e PN
Tag along mínimo100%100%80% (ON)80% (ON)
Free float mínimo25%25%25%Não exige
Conselheiros independentesMín. 2 ou 20%Mín. 2 ou 20%Não exigeNão exige
Comitê de auditoriaObrigatórioNão exigeNão exigeNão exige
Câmara de arbitragemObrigatóriaObrigatóriaNão exigeNão exige
Área de auditoria internaObrigatóriaNão exigeNão exigeNão exige

Duas colunas merecem explicação. Câmara de arbitragem significa que conflitos societários são resolvidos em arbitragem especializada em vez do Judiciário comum. Na prática, isso costuma reduzir de muitos anos para poucos anos o tempo de solução de uma disputa, o que é decisivo, porque justiça que chega tarde demais em conflito societário equivale a não ter justiça. Comitê de auditoria é um órgão que supervisiona os controles internos e o trabalho do auditor externo, e existe justamente para que o auditor não fique subordinado apenas às pessoas cujas contas ele deveria checar.

Vale registrar que o segmento é um piso, não um teto. Existem empresas no segmento Básico com governança impecável e histórico limpo de décadas, e existem empresas no Novo Mercado com problemas sérios. O selo muda a probabilidade, não a certeza. Se você quer entender melhor a mecânica dos segmentos e da própria bolsa, vale ler como funciona a B3.

VENDA DO CONTROLE: QUANTO O MINORITÁRIO RECEBE Comprador paga R$ 50,00 por ação ao controlador. Ação estava a R$ 30,00 na bolsa. Controlador R$ 50,00 Tag along 100% R$ 50,00 Tag along 80% R$ 40,00 Sem tag along (PN) preço de mercado A diferença entre 100% e 80% são R$ 10,00 por ação, ou 20% do valor da sua posição.
O tag along só aparece no dia em que o controle é vendido, e nesse dia ele vale exatamente a diferença que ninguém precificava antes.

Tag along: o direito que dorme até o dia em que vale tudo

Tag along é o direito de ir junto. Se o controlador vende o bloco de controle para outro grupo, o comprador é obrigado a fazer uma oferta pública para comprar também as suas ações, por um percentual do preço pago ao controlador. É a versão societária da cláusula que obriga quem compra o prédio a manter as condições dos inquilinos.

A lei brasileira garante 80% do preço pago ao controlador, e apenas para ações ordinárias. Novo Mercado e Nível 2 elevam isso para 100%. Parece uma diferença técnica de vinte pontos percentuais, e é justamente por parecer pequena que ela é ignorada durante anos. No exemplo do gráfico, com o controle vendido a R$ 50,00 e a ação a R$ 30,00 na bolsa, o tag along de 100% te paga R$ 50,00 e o de 80% te paga R$ 40,00. São R$ 10,00 por ação, ou seja, um quinto do seu dinheiro, decididos por uma linha do estatuto que você poderia ter lido antes de comprar.

Dois pontos importam aqui. Primeiro, se as suas ações forem preferenciais sem previsão estatutária de tag along, você pode não receber nada além do preço de mercado, que costuma cair justamente depois do anúncio, quando o mercado percebe que o prêmio ficou todo com o controlador. Segundo, tag along só é acionado em transferência de controle. Venda gradual de ações em bolsa, reorganização societária ou incorporação seguem regras diferentes, e é comum que operações sejam desenhadas exatamente para não configurar mudança de controle. Ler o estatuto e o fato relevante é obrigatório.

ON contra PN: quem vota e quem só torce

Ação ordinária dá direito a voto. Ação preferencial normalmente não dá, e em troca oferece prioridade na distribuição de dividendos ou dividendo maior. Simplificando, ON é ser sócio com voz e PN é ser sócio com preferência no bolo, mas sem voz na cozinha.

Para o investidor pequeno, o voto individual é irrelevante em número, e por isso muita gente conclui que ON e PN dão no mesmo. O erro está em pensar no voto isolado em vez de pensar no bloco. Quando existe uma massa relevante de ordinárias em circulação, os minoritários podem se organizar, eleger conselheiro em votação separada e influenciar decisões. Quem só tem PN não participa dessa mesa. Além disso, o preço da ON tende a incorporar o valor do controle, enquanto a PN costuma negociar com desconto persistente, e esse desconto tende a se ampliar exatamente nos momentos de conflito societário, quando poder de voto vira dinheiro.

Há também o outro lado, honestamente. PNs às vezes têm liquidez muito superior, dividendo mínimo estatutário e negociam mais baratas, o que pode compensar em empresas de controle estável e histórico limpo. A escolha depende do caso, e o artigo sobre ações ON, PN e units detalha as diferenças e o funcionamento das units, que juntam os dois tipos num pacote.

Conselho de administração e conselheiros independentes

O conselho de administração é quem contrata, avalia e demite a diretoria executiva, aprova a estratégia e fiscaliza os números. Se a diretoria é o time em campo, o conselho é a direção do clube. O problema estrutural aparece quando os conselheiros são indicados, remunerados e removidos exclusivamente pelo controlador, e vários deles são parentes ou executivos da própria casa. Nesse arranjo, o conselho não fiscaliza ninguém, ele apenas homologa.

Conselheiro independente é aquele sem vínculo com a empresa, com o controlador ou com fornecedores relevantes, e sem relação de parentesco com a administração. O Novo Mercado exige no mínimo dois ou 20% do total, o que for maior. Ao ler a composição do conselho, verifique se os independentes são de fato independentes, se estão nos comitês que importam (auditoria, indicação e remuneração) e se o presidente do conselho é pessoa diferente do diretor-presidente. Acumular presidência do conselho e da diretoria na mesma pessoa é o equivalente a ser fiscalizado por si mesmo, e o Novo Mercado veda essa acumulação.

Vale conhecer também o conselho fiscal, órgão previsto na lei brasileira que pode ser permanente ou instalado a pedido dos acionistas. Minoritários com participação relevante têm direito de eleger membro dele, e um conselho fiscal ativo, com voz independente, é um dos poucos instrumentos concretos que o minoritário tem para pedir explicação sobre números específicos.

Transações com partes relacionadas

Este é o ponto clássico, e é literalmente a história da carne comprada do cunhado. Transação com parte relacionada é qualquer negócio da companhia com o controlador, com empresas do mesmo grupo, com executivos ou com familiares deles. Aluguel do galpão que pertence à família controladora, contrato de consultoria com escritório do sócio, compra de insumo de coligada, empréstimo da companhia para o controlador.

Nada disso é ilegal ou automaticamente ruim. Muitas dessas operações são eficientes e estão em condições de mercado. O que importa é se a operação foi feita em condições comutativas, se foi divulgada com clareza e se quem tinha interesse na transação se absteve de votar. Os sinais de alerta são específicos e você consegue procurá-los: volume alto de transações com partes relacionadas em relação à receita, contratos sem prazo definido ou renovados automaticamente, ausência de laudo independente, e principalmente empréstimos concedidos pela companhia a sócios ou coligadas, que é a forma mais direta de tirar caixa do minoritário e colocar no bolso do controlador.

Onde procurar: as demonstrações financeiras têm uma nota explicativa chamada Partes Relacionadas, obrigatória. Leia a tabela inteira e some os valores. Se a soma representa uma fatia material da receita ou do lucro, você não está mais analisando só o negócio, está analisando também a relação entre a companhia e a família que a controla. Compare os valores entre anos: crescimento acelerado dessa nota costuma anteceder problemas.

Remuneração de executivos: alinhada ou não

Remuneração é o mecanismo mais direto de alinhar interesses, e também o mais fácil de desalinhar. Um executivo que recebe quase tudo em salário fixo não tem motivo econômico para arriscar nada, e nem para se importar com a ação. Um executivo cujo bônus depende só do crescimento de receita tem todo incentivo para comprar empresas caras e crescer sem retorno. Um executivo remunerado por lucro por ação pode recomprar ações com dívida para inflar o indicador sem criar valor real.

O que costuma indicar bom alinhamento: parcela relevante da remuneração variável atrelada a retorno sobre capital investido ou geração de caixa, não apenas a receita ou lucro contábil; ações ou opções com prazo de carência longo, de três a cinco anos; exigência de que o executivo mantenha posição própria em ações da empresa; e cláusulas de devolução de bônus em caso de reapresentação de balanço.

Compare também a proporção. A empresa divulga a remuneração total do conselho e da diretoria no formulário de referência. Divida esse valor pelo lucro líquido do ano. Não existe número mágico, mas se a administração está levando uma fatia visível do lucro num ano em que o acionista não recebeu quase nada de dividendo e a ação caiu, isso é um dado relevante sobre para quem a empresa está sendo tocada.

Free float e liquidez

Free float é a fatia das ações efetivamente em circulação no mercado, fora das mãos do controlador e de pessoas ligadas. Novo Mercado, Nível 1 e Nível 2 exigem 25% no mínimo.

Free float pequeno gera três problemas concretos. O primeiro é liquidez: você compra fácil e vende difícil, e num dia de pânico o preço que aparece na tela pode estar muito longe do que você consegue executar. O segundo é volatilidade artificial, porque poucas ordens movem muito o preço, o que torna o ativo mais fácil de manipular. O terceiro, o mais silencioso, é político: com float baixo, os minoritários nunca reúnem quórum suficiente para exercer os direitos que a lei lhes dá, como eleger conselheiro em votação separada ou instalar conselho fiscal. Direito que existe no papel e não tem votos para ser exercido não protege ninguém. Esse é um dos pontos que merecem atenção especial em ofertas iniciais, tema tratado em IPOs valem a pena, já que muita empresa estreia com float mínimo e concentração alta.

Empresas estatais e o risco político

Empresas de controle estatal têm uma característica estrutural que precisa ser analisada de forma técnica, sem qualquer leitura partidária: elas têm um acionista controlador cujo objetivo legítimo não se limita ao lucro. O poder público também responde por emprego, preços, política setorial e investimento regional. Isso não é desvio nem irregularidade, é a natureza do controlador, e vale para qualquer governo, de qualquer orientação.

A consequência para o minoritário é objetiva. Podem existir períodos em que a companhia adote política de preços diferente da que maximizaria o resultado, ou execute investimentos com retorno abaixo do custo de capital, ou passe por trocas de comando associadas ao calendário político. Historicamente, o mercado responde precificando essas empresas com múltiplos mais baixos e exigindo dividendo maior. Esse desconto costuma se comportar de forma cíclica: encolhe em fases de maior autonomia de gestão e se amplia em fases de maior intervenção percebida, independentemente de quem esteja no comando do país.

Existem travas relevantes. A Lei das Estatais estabeleceu requisitos técnicos para indicação de dirigentes e restrições a nomeações políticas, várias estatais aderiram ao Nível 1 ou ao Novo Mercado, e mecanismos como golden share e cláusulas de proteção contra concentração acionária constam de alguns estatutos. Nenhuma dessas travas elimina o risco, elas o reduzem e o tornam mais visível. A conclusão prática não é evitar estatais nem confiar nelas, é reconhecer que o preço de uma estatal já embute esse risco, e que o seu trabalho como investidor é julgar se o desconto oferecido compensa a incerteza que você está aceitando. Empresas privadas com controlador único concentrado enfrentam versão parecida do mesmo problema, com outro tipo de agenda.

O que você consegue checar sozinho e de graça

Toda companhia aberta brasileira é obrigada a publicar um volume enorme de informação. Está tudo no site de Relações com Investidores e no portal da CVM, sem custo e sem cadastro. Um roteiro de uma hora, feito uma vez antes de comprar, filtra a maior parte dos desastres.

  1. Segmento de listagem. Aparece na primeira página do site de RI e na ficha da empresa na B3. Anote também o tag along efetivo por classe de ação.
  2. Estatuto social. Procure as cláusulas de tag along, de poison pill (proteção contra aquisição), de direito de voto das preferenciais e de composição do conselho.
  3. Formulário de referência. É o documento mais rico e o menos lido. Vá direto a três seções: fatores de risco, com atenção especial aos riscos relacionados ao controlador; administração, para composição do conselho, independência e acumulação de cargos; e remuneração, com os valores totais e a divisão entre fixo e variável.
  4. Nota de partes relacionadas nas demonstrações financeiras, comparando ao menos três anos.
  5. Parecer do auditor independente. Ressalva, abstenção de opinião ou parágrafo de ênfase sobre continuidade operacional são sinais graves. Troca frequente de auditor sem explicação clara também.
  6. Atas de assembleia. Veja se houve votos contrários relevantes de minoritários e sobre o que eles discordaram. Conflito registrado em ata é informação pública e raramente vira notícia.
  7. Fatos relevantes e comunicados dos últimos três anos. Leia em ordem cronológica. Padrão de reapresentação de resultados, troca frequente de diretor financeiro e processos administrativos na CVM contra administradores formam um histórico que vale mais que qualquer indicador.
  8. Composição acionária. Quem controla, com quanto, e se existe acordo de acionistas. Acordo de acionistas define de verdade quem manda e frequentemente contraria a impressão que o percentual sozinho passa.

Se algum termo travar a leitura, o glossário do investidor resolve a maioria deles. E vale guardar a regra que resume tudo: governança não é um item que você confere no dia da compra e esquece. É uma leitura que se refaz a cada troca de controle, a cada mudança de conselho e a cada reorganização societária, porque é exatamente nesses momentos que a proteção do minoritário é testada.

Este artigo tem caráter educativo e não é recomendação de investimento. Regras e taxas podem mudar, confirme as condições vigentes antes de investir. Rentabilidade passada não garante resultados futuros.